IV. MORTE PELA ÁGUA

IV. Morte pela Água (Death by Water) A parte IV do poema é a mais curta de todas, apresentando apenas dez versos. Refere-se à morte por afogamento de Flebas, o Fenício, já antecipada por Madame Sosóstris quando tirou de seu baralho a carta do Marinheiro Fenício afogado (v.47). Essa “é a sua carta”, ela disse, dirigindo-se ao consulente, ou a todos nós, que também devemos morrer nesta Terra Desolada a fim de renascermos nela para uma outra vida, como ocorre na primavera. A parte IV nicia assim: Phlebas the Phoenician, a fortnight dead, Forgot the cry of gulls, and the deep sea swell And the profit and loss. (vv.312-4). (Flebas, o Fenício, morto há quinze dias,/ Esqueceu o grito das gaivotas, o mar profundo intumescido/ E os lucros e perdas) Note-se o efeito subliminar de duas palavras empregadas no v. 313, quando associadas ao verso anterior. Trata-se de “cry”, em “the cry of gulls” (o grito das gaivotas), e “swell”, em “the deep sea swell” (o mar profundo intumescido). Sabemos que “cry” também significa “súplica, apelo” e “to cry”, “chorar, lamentar-se”. Por outro lado, “swell” tem ainda o significado de “inchação, intumescimento”. Naturalmente, ambas as palavras foram escolhidas porque carregam consigo essas conotações, muito sugestivas, quando associadas ao “morto de quinze dias” (a fortnight dead- v. 312) e à condição física do cadáver. Neste, e em outros casos, Eliot joga, obviamente, com as ambiguidades dos significados múltiplos dessas palavras na língua inglesa, que se perdem na tradução em português. A menção aos “lucros e perdas” (v. 314) aponta para o fato de que Flebas é um comerciante (característica dos antigos fenícios), condição comum também ao “mercador caolho”, outra carta do baralho de Madame Sosóstris (v. 52), e ao “mercador de Esmirna”, o sr. Eugenides, que negocia passas, referido no v. 209. Por outro lado, na sua condição de “marinheiro”, ele se associa a Ferdinand, príncipe de Nápoles (personagem de “A Tempestade”, de Shakespeare), conforme a nota de Eliot ao v. 218. O poeta funde todos esses personagens num só, o ser humano masculino, como já foi comentado. Flebas assim foi tragado pelo mar: A current under sea. Picked his bones in whispers. As he rose and fell He passed the stages of his age and youth Entering the whirpool. (vv. 315-8) (Uma corrente submarina/ Recolheu seus ossos em sussurros.Enquanto subia e descia/ Ultrapassou sua maturidade e juventude/ Entrando no sorvedouro). Saliente-se que “to pick”, no v. 316, além de “colher, recolher”, tem o sentido de “roer, descarnar (osso)”, de acordo com o dicionário Inglês-Português de Houaiss. Conforme Southam (153), os versos 315-316 relacionam-se à “mudança marinha” mencionada na canção de Ariel para Ferdinand, em “A Tempestade”, mudança essa que seria responsável pelo naufrágio e morte de seu pai, Alonso, rei de Nápoles (já referida anteriormente, no v.192). Nos últimos versos, o poeta dirige-se ao “Gentio ou judeu” (Gentile or Jew- v.319), ou seja, a toda a humanidade. O fato de destacar a condição judaica, antes de revelar algum antissemitismo, deve ser explicada pela ressonância bíblica desses versos (todavia, o destaque de tal condição relativamente ao casal rico na parte II, indicada pela menção ao menorá, parece menos justificada). Especificamente, o poeta dirige-se àquele que maneja a roda do leme do barco (da sua vida), vale dizer, dirige-se a qualquer um de nós. A sorte de Flebas nos diz respeito, o que é indicado pelas características comuns que tivemos com ele um dia: Gentile or Jew O you who turn the wheel and look to windward, Consider Phlebas, who was once handsome and tall as you (vv.319-21) (Gentio ou judeu/Ó tu, que giras a roda e olhas a barlavento,/ Pensa em Flebas, que foi um dia belo e alto como tu) Quando alguém gira a roda e olha a barlavento (na direção de onde sopra o vento), subentende-se que seja a roda do leme mas lembremo-nos que “roda” (wheel), conforme alerta McMichael (154), também pode ser entendido como “Roda da Fortuna”, que já apareceu antes, como uma das cartas de Madame Sosostris (v. 51). Assim, mais uma vez, Eliot compõe um verso intencionalmente ambíguo, com sugestões que se completam, pois “o homem do leme”, sendo cada um de nós, conduz o barco da própria vida, sujeito aos azares da fortuna. Essa interpretação permite, portanto, a união dos dois sentidos de “wheel”, como “roda do leme” e “Roda da Fortuna”. A ambiguidade, no caso, pode ser preservada na tradução em português pela menção apenas de “roda”. A propósito, já foi mencionado antes um terceiro sentido de “roda”, o de Roda da Existência budista (lembrada pela fonte referida em nossa nota 58). O Fenício Afogado, conforme a tradição, era uma representação do deus da fertilidade, que precisaria morrer para renascer, posteriormente. Segundo Jessie Weston, apud Southam (155), “todo ano, em Alexandria, uma efígie da cabeça do deus era lançada ao mar, como um símbolo da morte dos poderes da natureza. A cabeça era carregada pela correnteza até Biblos, sendo então recuperada e adorada como um símbolo do deus renascido. Uma outra poderosa tradição da morte-pela-água portadora da vida está contida no sacramento cristão do Batismo”. Southam cita, para comprovar isso, a Epístola de S.Paulo aos Romanos VI, 3-4, onde está escrito: “Vós não sabeis que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Porque nós fomos sepultados com ele, a fim de morrer pelo batismo, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim nós vivamos uma vida nova.” (156). Na Bíblia traduzida pelo Pe. Matos Soares consta a seguinte nota ao versículo 4: “O batismo, relativamente ao pecado, é, misticamente falando, uma cerimônia fúnebre. Põe-nos no túmulo com Cristo (o que é significado pela imersão na água), a fim de ressuscitarmos em seguida para viver uma vida nova”. A morte de Flebas, assim, encontra aí o seu significado. Situada como a penúltima parte do poema, antecedendo o seu desfecho moral, representa um momento de ruptura, assinalado não só por sua brevidade mas também pelo contraste que estabelece entre a água, elemento fundamental no poema, e o fogo na parte III ou a rocha na parte V. Desse modo, Flebas (ou cada um de nós) deve morrer para que possa ressurgir depois, numa vida renovada. Para tanto, Eliot propõe aos habitantes da Terra Desolada -- essa Terra sem vida (dead land- v.2) -- o caminho orientado pela mensagem de sabedoria oriental contida no fim do poema. Só então eles não irão mais recear a vida, aquela que ressurge no mês de início da primavera (“o mais cruel dos meses”- v.1).

Comments

Popular posts from this blog

A TERRA DESOLADA: ESTUDO DO POEMA "THE WASTE LAND", DE T.S.ELIOT, E SUA TRADUÇÃO EM PORTUGUÊS por Domingos van Erven

V. O QUE DISSE O TROVÃO

I. O ENTERRO DOS MORTOS